Concursos, críticos e pontuações de Vinhos. Será que precisamos deles?

Na última semana, nas redes sociais, tem feito sucesso um artigo sobre uma “partida” feita pelo Sommelier Belga – Eric Boschman,melhor Sommelier Belga em 1988, autor,, comediante, apresentador de TV e criador de “apanhados”.

Eric e alguns amigos, escolheram vários Vinhos abaixo de 3 Euros no Supermercado, fizeram a sua avaliação do pior, fizeram um restyling, pediram análises e enviaram para um concurso https://www.gilbertgaillard.com.

Surpreendentemente ou não, o Vinho teve 88 pontos e uma medalha de ouro.

Por curiosidade abri o site, e pesquisei alguns Vinhos Portugueses que já participaram neste concurso, todos que abri tinham ouro, vinhos como Maria Fadista, Aluado, Lucky Rooster, 200 Gallons e outros ilustres desconhecidos, todos pontuados com medalha de ouro.

Do que pesquisei o concurso só tem medalha de ouro.

Não conheço nem o Vinho enviado pelo Sommelier Belga, nem os Vinhos Portugueses referidos, pelo que não irei julgar o valor da pontuação ou da medalha. A questão que se coloca é que aparentemente qualquer pontuação neste concurso dá direito a medalha de ouro. O que é simpático e bem atual, porque hoje há medalhas para tudo, ganhe-se ou não, leva-se uma medalha, mas isso é outro tema.

Recentemente também, o Master of Wine Konstatin Baum, falou sobre o sistema do crítico italiano Luca Maroni, em que quase todos os Vinhos têm direito a uma excelente pontuação independentemente da qualidade. Recomendo o vídeo https://www.youtube.com/watch?v=VKvv30LmLzw.

Desde que me lembro (anos 80), de ouvir que qualquer Vinho podia ter uma medalha, era preciso era enviar para o concurso certo. 

Mas afinal o que está por trás destas pontuações e destas medalhas, para vinhos que aparentemente não teriam qualidade para as ganhar? 

Primeiro, os concursos e as críticas, em muitos casos são um negócio, paga-se para ter o Vinho no concurso, paga-se para ser avaliado e paga-se pelos autocolantes para colocar nas garrafas. E aqui é que está o negócio, quem vai enviar Vinhos para concurso se não ganhar nunca medalhas, quem vai enviar, se não puder depois demonstrar esses prémios aos seus parceiros e aos clientes.

Quer dizer que todos os concursos e todos os críticos atuam apenas como negócio, e dão medalhas e pontuações a toda a gente? Claro que não.

Como em todos os negócios, há quem faça as coisas de uma forma mais rigorosa e menos rigorosa. Há concursos rigorosos, em que as provas e as classificações são feitas de forma séria, não significa que não haja subjetividade, afinal trata-se de provas e de vinho. Vai sempre haver subjetividade. Mas a realidade é que há concursos com sistemas mais sérios, com júris mais conceituados, com métodos para verificar a veracidade do que é enviado para prova.

O mesmo acontece com os críticos, e por isso temos publicações mais credíveis, com mais leitores e seguidores, e outras com menos. Mesmo que não se concorde, percebe-se que há credibilidade.

Mas não se pense que são só alguns concursos e críticos que são menos rigorosos, também há várias histórias de Produtores que enviam Vinhos de mais qualidade ou de anos melhores para os concursos, para obterem melhores pontuações, e depois o Vinho colocado no mercado está longe daquela qualidade.

Temos também as publicações e pontuações nas Revistas, em que temos de confiar na credibilidade de quem assina e da própria publicação, mas que não se livram de ter publicidade, de organizar eventos e tudo o mais… o que não é de todo exclusivo do nosso setor. 

Tivemos também casos de quem alegadamente cobrasse aos Produtores para que o crítico da Wine Advocate os visitasse, o famoso no país vizinho e nos Estados Unidos, “CampoGate” ou “murcilagate”. https://www.vinography.com/2011/12/big_jay_miller_departs_wine_ad , que aparentemente passou ao lado de Portugal.

São várias as histórias e casos. As apps e os reviews do público também são polémicas, mas pelo menos quando tem um certo volume, ganham credibilidade pela quantidade de gente a dar opinião. É preciso claro ter a noção de que nestas opiniões se misturam pessoas com diferentes nível de conhecimento, diferentes gostos pessoais, países, etc.

Mas será que então tudo isto não serve para nada, ou só serve para atrapalhar o consumidor e fazer os Produtores gastarem dinheiro?

Talvez, mas acho que não. A verdade é que há concursos com renome e críticos com renome que ajudam realmente a orientar os consumidores e são muito importantes e fator de decisão em muitos mercados e momentos.

Então os bons críticos, os bons concursos, as boas revistas, dão credibilidade, ajudam o Trade a tomar decisões, ajudam o consumidor a conhecer mais, a saber o que escolher e pouco perceber se se identifica com aquele crítico e com o seu gosto. Não vou especificar críticos, concursos ou revistas, mas definitivamente são úteis e têm tido um papel muito importante no crescimento do mercado do Vinho. Hoje junta-se a tecnologia, com apps de reviews, os influencers, a família, os amigos, todos que partilhamos e damos opinião num mercado cada vez mais global e com mais ruído.

Em resumo, como em tudo, é preciso escolher bons parceiros e perceber em que campeonato queremos jogar. Receber uma medalha nos Jogos Olímpicos, ou ganhar a Champions League não é igual a ganhar o campeonato do Bairro. Somos todos Campeões, mas de campeonatos diferentes!

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